17.7.07

Estive pensando...

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Sobre o uso da alma pelo lado de fora

.....Gosto dos textos do Antonio Prata. Acho-o excelente escritor. Competente, divertido. Quando adolescente, era fã da revista Capricho. Acompanhava todas as edições. Atualmente, já sem idade para isso, não resisto a pegar a mais recente edição e correr para a última página. Quando tenho tempo, folheio a revista toda, todavia, o meu maior interesse é pela última página. É lá que eu encontro a coluna do filho de Mário Prata. Sempre abordando temas corriqueiros e engraçados, desta vez ele falava sobre muitas leitoras que enviaram-no e-mails perguntando qual seria a melhor forma de trabalharem como jornalistas e/ou escritoras. Nesta coluna, ele dizia para não se prenderem à faculdade de jornalismo, que este curso é só o começo, que oferece algumas ferramentas, mas que não ensina um jornalista à “enxergar o mundo”. Esse texto foi a confirmação de que havia alguma “coisinha” errada no meu planejamento de carreira. Isso me preocupou e o texto de “Prata Jr.” ocupou a minha mente durante dias, contudo, ao fechar a revista, encontrei algo intrigante que roubou minha atenção.
.....Uma propaganda de uma marca de tênis. O nome não vem ao caso. A frase que servia como legenda para os dois pares de pés calçados que apareciam na foto era: “Use a alma pelo lado de fora”. Assim mesmo, com a palavra “alma” em destaque. Parei e fiquei observando aquela contra-capa por alguns instantes. Mergulhei em reflexões filosóficas. Qual o significado de alma para Deus quando Ele a criou? Qual o significado de alma para os filósofos na época de Sócrates? Qual era o significado de alma para os reis e as princesas? Qual era o significado de alma para Shakespeare? E para Freud? E qual o significado de alma para os atuais pastores evangélicos?
.....Dei-me conta que para os jovens – e os não tão jovens – de hoje em dia, alma significa ter o tênis da moda, uma blusa de grife, uma calça de preço estrondoso… Será somente isso? A essência de vida resumiu-se ao um objeto de borracha e tecido? E se todas as pessoas obtiverem este tênis e eu não? Serei um ser sem alma? Calçar este emblema grudado nos meus pés faz de mim uma pessoa melhor? Receberei uma premiação por isso? Ou o tênis é um prêmio por si só?
.....É definitivamente triste ver a que ponto os seres humanos chegaram hoje. Viver em um mundo, na qual se mede o valor de uma pessoa pelo o que ela veste, não está nada fácil. Há pouco tempo que comecei a prestar atenção na moda. Confesso que por influência de minha irmã que sempre gostou de se vestir bem e me incentivou a calçar mais sapatos e usar acessórios. Entretanto, continuo prestando muito mais atenção no que as pessoas dizem. É em uma conversa (por favor, leitores, de mais de quinze minutos!) que se conhece um pouquinho do que a pessoa é de fato. Se alma não for um espírito residindo dentro de um pedaço de carne, ela é a mente de uma pessoa.
.....Entristece-me ver tantas relações superficiais, o egocentrismo, individualismo, egoísmo e culto ao corpo. Uma marca é somente uma marca, um nome como qualquer outro. Às vezes apenas mais bonito ou mais feio. Desvencilhem-se, leitores, do que a mídia e a sociedade intitulam como “bom” ou “ruim”. Se um colega de trabalho possui um carro do ano, não saia correndo louco para se endividar para ter um igual se, até o momento, você estava satisfeito com o seu. Não se preocupe se as pessoas ao seu redor vivem competindo umas com as outras. Não entre neste jogo. Tente você ser cooperativo. Um cooperador com coisas sadias, relacionamentos fortes e estáveis. Isso sim chama a atenção. Estar em destaque se fundamenta justamente nisso, fazer a diferença. Viver na contra-mão do mundo.





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O Beijo

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.....Aquele beijo foi um roubo. Uma traição. Uma tristeza.
.....Sentia como se aqueles lábios me pertencessem assim como me pertence essa dependência do ar para continuar vivendo. Doeu. Doeu demais. Uma dor inexplicável. Indescritível. Nunca encontrarei a cura para tal, apenas me acostumarei com ela.
.....Todavia, tudo na vida é aprendizado. E tudo isso me serviu para compreender que grande parte do controle das nossas vidas não se encontra em nossas mãos. Algumas coisas são imprevisíveis, inevitáveis. E devemos rir da cara do destino.
.....Até então, eu não pretendia conhecer um beijo sem sentimento, sem carinho, sem emoção, sem expectativas. Agora, já não me importo mais, afinal, às vezes, ou na maioria das vezes, um beijo pode ser apenas um beijo. E nada a mais. É possível que, um beijo que é apenas um beijo, torne-se sentimento, carinho, emoção, expectativas.
.....Eu perdôo. Sem demagogia. Perdôo. Estou livre. Livre de um beijo fingido. Livre de um peso que é a mágoa.
.....Um beijo é apenas um beijo. Obviamente, concordo que com amor ele é muito mais intenso e gostoso, porém… contudo… no entanto… todavia… quem tem a ousadia de afirmar como de fato é o amor? Existe uma maneira de ensinar como identificá-lo?
.....Considero o ser humano privilegiado. O seu amor pode ser tanto real, verdadeiro, como simplesmente fruto da nossa imaginação. E como afirmou Clarice Lispector, em uma realidade inventada tudo acontece exatamente como queremos. Sem tirar nem pôr.
.....Está lendo tudo isso como se fosse meros devaneios? Está errado. É (somente) um momento nostálgico. Um dentre muitos.

Vôo de Balão

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.....Fazer um passeio de balão me ensinou algo quase inefável.
.....Da possibilidade de observar através de vários ângulos uma mesma situação, ou um mesmo objeto, todos têm conhecimento. Porém, são poucos os que entendem – e sentem – a importância disto.

.....Cada prisma nos proporciona a dádiva de uma sensação diferente.

A sensação de estar apenas observando…



A sensação de notar-se tão perto…



A sensação de fazer parte do cenário…



A sensação de estar além do que se havia imaginado…



A sensação de ver que está chegando ao fim…






(Piracicaba - 07/06/2007)

12.7.07

Estive pensando...

...sobre as pessoas



.....Estive observando, analisando, refletindo e me surpreendendo com as pessoas. O comportamento humano sempre foi algo que muito me chamou a atenção. Mesmo assim, ainda prefiro prestar mais atenção nos livros, nas artes, na música… Mas tudo isso não existiria sem as benditas pessoas. O que é um livro senão obra escrita por uma pessoa? O que são os personagens senão pessoas (fictícias ou reais)? O que é uma pintura senão a representação da visão ou do sentimento de um artista? A obra A Porta do Inferno, de Rodin, seria a porta do inferno sem Rodin? Ou, algo mais belo, a escultura O Beijo seria “o beijo” sem a imaginação e o brilhante talento deste artista? Dificilmente… Ainda pior! Não existiria a Primavera! Já pensou um mundo sem primavera? !
.....Enfim, vi-me sem saída. Preciso continuar observando com curiosidade as pessoas. Aliás, observo tudo. O cenário, a situação, os coadjuvantes, até suas sombras. Assim como o excelentíssimo texto de José de Alencar nas primeiras páginas da obra O Sertanejo, assim sou eu observando o mundo. Como se fosse uma câmera, observo as estrelas, o universo, o planeta Terra, então, noto o contorno do continente sul americano, faço um “zoom” para observar melhor este nosso país chamado Brasil. Aproximo-me de São Paulo, e continuo, até alcançar o lugar onde estou. Pode ser aqui, sentada, na frente do computador. Ou na empresa onde trabalho. Ou em um parque, onde posso sempre manter as árvores ou o pôr-do-sol como cenário de fundo (e existe outro melhor para se enquadrar?). E finalmente, fixo-me na pessoa com quem estou conversando, ou que está no mesmo ambiente na qual me encontro, e percebo, quando olho bem no fundo dos olhos dela, que há um outro universo que eu desconheço. Um universo infinito e indecifrável. E me dou conta que em cada pessoa em que fixo o meu olhar há um universo escondido, disposto - ou não - a ser desvendado.
.....Encontro-me, então, irritada. Frustrada. Incapaz. Impossibilitada de mergulhar nos olhos destas pessoas e nadar por cada cantinho do seu interior. A alma humana (entende-se aqui, mente) é algo fascinante! Rica em detalhes. (Como me apego a detalhes! São eles que formam o conjunto final, como também, são eles belíssimos por si só!). Queria eu entender o porquê de certas atitudes, comportamento, reações diversas perante cada situação. Eu queria entender como uma pessoa consegue agir tão espontaneamente sem medo de errar ou de falar alguma bobagem, enquanto outras dissimulam, fingem algo que não são, enganam… E, mais do que isso, gostaria de entender porque determinadas, para não dizer muitas, pessoas desacreditam daquelas que sorriem livremente simplesmente liberando a sua essência, e apóiam aquelas que escondem a sua verdadeira personalidade e influenciam quase sempre por motivos interesseiros…
.....A minha ânsia para compreender isto se torna a minha tristeza. E a minha incapacidade, uma frustração. Talvez eu devesse, tomando como exemplo a síndrome de Pollyana*, mudar para o outro lado do muro. Sim, sou dessas, caro leitor, que sorrio e sou gentil sinceramente. Quando gosto de algo ou de alguém, demonstro. Quando não gosto, não destrato nem ignoro, mas também não me aproximo. Sou sincera. O meu andar, o meu agir, a minha forma de muito gesticular enquanto falo (como uma boa descendente de italianos!), as minhas escolhas lexicais, a minha maneira de vestir, tudo, exatamente tudo revela a minha essência. E das pessoas que pertencem ao outro lado do muro, eu nada sei, nada compreendo, exatamente porque elas são assim: usam inúmeras máscaras e como perfeitos atores de teatro, perambulam pelo mundo afora manipulando e de forma hipócrita, isso mesmo, de forma hipócrita sempre conseguem o que querem.
.....Talvez, para que eu não me sinta tão mal, ironicamente, eu devesse pular o muro. Pelo menos para teste. E conferir se, finalmente, serei ouvida. E sendo ouvida, que seja também compreendida, mesmo que o que eu esteja falando seja pura mentira e fingimento.
.....Essa angústia, leitores, essa angústia que sinto por não conseguir compreender as razões desse primeiro ato (primeiro para mim, pois, provavelmente muitos outros atos já haviam sido encenados antes das cortinas subirem), essa sim é algo que posso chamar de inefável. Um inefável ressentido…


.....Vou parar de escrever, pois a primavera já se foi (porque ela é obrigada a ser sempre “ida”!) e o outono chegou… Não gosto de escrever quando é outono. Gosto apenas de sentar à janela e observar as folhas secas das árvores caindo… Porque quando elas caem, somente quando caem, são merecedoras da minha desilusão.

Tudo lhe era possível

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(...).
- E de repente, ela descobriu que era possível.
- O que era possível?
- Tudo lhe era possível.
- A vida lhe era possível?
- Tudo lhe era possível. A vida, a morte, os sonhos, o amor…
- O amor também lhe era possível?
- Sim, e porque não?
- E as cicatrizes da vida que a tornaram cética?
- Apagaram-se com o soprar do vento.
- E os assuntos mal-resolvidos do passado?
- O soprar do vento também virou essa página. O que não tem solução, solucionado está.
- Mas… e o medo?
- Ela supera. Quando se quer muito alguma coisa, vale a pena correr o risco.
- E a timidez, ela se livrou?
- Não, a aceitou. Talvez a timidez seja o seu mistério, o seu charme…
- E o que ela fez com o ceticismo, jogou no lixo?
- Ela prefere acreditar em algo e estar errada a não acreditar em coisa alguma.
- E o que fez com que ela acreditasse que tudo lhe era possível?
- O seu coração foi preenchido por palavras de sabedoria.
- E quais palavras foram essas?
- As palavras de sabedoria.
- Sabedoria de quem? De Deus? De Jesus Cristo? De Buda? De Bono Vox?
- As palavras do vento que soprou.
- E o que foi que o vento falou?
- Que tudo lhe era possível.


Em busca do Inefável

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O que significa “inefável”? O que é o inefável?
Segundo o dicionário Houaiss, “algo que não se pode nomear ou descrever em razão de sua natureza, força, beleza; algo indizível, indescritível, ou algo que causa imenso prazer, que seja inebriante, delicioso, encantador(…)”.

Pergunto-me novamente, o que é inefável? O que pode ser inefável em tempos modernos, nos quais, tantas coisas já se foram escritas, traduzidas, adaptadas para o cinema, entrado como pauta em debates filosóficos…? O que pode ser inefável quando tudo parece já ter sido vivido, sentido, apreciado?

Mais uma vez, o que é inefável?
Estou em busca de algo, uma palavra, um acontecimento, uma pessoa, uma experiência, que sejam inefáveis.

Serei eu inefável?
Como saberei se pouco conheço sobre esta palavra? E pouco conheço sobre mim.
Penso que não sou inefável… Mas tenho certeza que a minha alma o é.

O que é inefável? Seria algo ligado ao sentido de plenitude, completude? O que está me faltando? O que me falta para descobrir o que é inefável?

Ou seria o sentir? O sentir que é o inefável?
A definição de sentir no dicionário é tão abrangente que eu não saberia discernir… Será que sentir é como quando suspiramos o toque da mão da pessoa que amamos? Não é como um toque qualquer, de amigo, de irmão… É diferente. Ou será que sentir é apenas uma forma de perceber, apreciar as coisas?

Será o amor inefável? Aliás, o que é o amor? E como sabemos quando de fato é amor?

Será o inefável uma pessoa? Alguém o (a) conhece? Como seria o senhor inefável? Imagino que não teria rosto… mas que sua presença me faria sentir algo… não sei… inefável?

Continuo com a minha indagação. Quero descobrir, e mais, sentir o que é inefável!

Estou à busca de algo, objeto, palavra, acontecimento, pessoa, lugar, experiência, sentimento, que seja inefável.

Se alguém souber e/ou conhecer, por favor, compartilhe?

Apresentação

Em busca do Inefável



Textos, relatos, crônicas, cartas, poemas, desabafos, representações, imagens, diálogos e reflexões sobre tudo quanto possa existir originário da essência da vida. Franca expressão e manifestação de sentimentos e pensamentos íntimos. Uma tentativa de decifrar aquilo que há de mais belo na existência humana, o inefável. Ele nada mais é que incompreensível, indescritível, indizível.






“Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada”. (Clarice Lispector)










Blog atualizado semanalmente.
Autoria de Srta. Inefável*


































*Fábia Zuanetti é jornalista, escritora e apresentadora de TV. Atualmente, trabalha na Editora Abril. Escreveu para a seção Vitrine Viva do Jornal Correio Paulistano e foi editora-chefe do informativo Palavras de Plenitude. Foi selecionada para a 27ª edição do Curso Abril de Jornalismo.
É criadora do blog Em busca do Inefável.