8.10.07

Somos uma invenção de nós mesmos*

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Por Ferreira Gullar**

Certo dia, me dei conta de que as pessoas se inventam, de que o ser humano é uma invenção de si mesmo. Veja se não é: a gente, quando nasce, é ninguém, não tem noção de nada, nem do mundo nem de si mesmo. Com o tempo vai aprendendo e então se pergunta: quem sou eu? E, para responder, começa a definir sua identidade. Aí começa a invenção. Claro, a sociedade já existia quando você nasceu, com os valores que a constituem e os quais você adquire pela educação. São valores que as pessoas, que vieram antes de você, inventaram. O conjunto desses valores se chama cultura, desde a noção de justiça, de certo e errado, até como se prepara uma salada. Tudo isso é cultura e foi inventado, como foram inventados a cidade e quase todas as coisas que estão nela: as casas, os automóveis, o telefone, o computador, a energia elétrica, etc., etc. Quem vive na natureza é macaco e onça; nós, seres humanos, vivemos em um mundo cultural, inventado por nós. E dentro desse mundo, as pessoas também se inventam: umas se inventam educadoras, outras artistas, outras esportistas, outras operárias outras vigaristas. Não estou dizendo que qualquer pessoa pode ser qualquer coisa, desde que decida ser. Nada disso. Para ser esportista, por exemplo, a pessoa deve possuir determinadas qualidades sem as quais não terá êxito. Logo, cada um se inventa mas mediante suas qualidades e necessidades, e é preciso que as outras pessoas o reconheçam como tal. Não adianta eu dizer que sou Napoleão, se ninguém acredita. Este é um dado importante: precisamos que o outro reconheça em nós a pessoa que inventamos ser. Por isso, nossa invenção tem de ser plausível, verdadeira. Não nos inventamos apenas para nós mesmos mas também para o outro que, ao nos reconhecer, dá sentido à nossa invenção.

*Texto publicado na primeira edição da Revista GLOSS, mais novo lançamento da Editora Abril, segmentada para garotas de 18 a 28 anos.

**Ferreira Gullar é escritor, poeta, crítico de arte, biógrafo, memorialista e ensaísta brasileiro.

Um comentário:

Silvia Helena & Fábio Pereira disse...

"Cada um se inventa mas mediante suas qualidades". Com este trecho, Gullar intensifica uma certeza: não somos o que queremos, apenas. Somos aquilo que conseguimos ser. Sócrates, por sua vez, já dizia dessa diferença entre o ser ideal e o ser real. A jornada humana é a busca (sem fim) pelo impossível...

Belo texto neste belo blog

Parabéns : )